O que as tuas decisões dizem sobre ti
- Soraia Pereira
- 24 de jun.
- 3 min de leitura
Toda a gente decide, mas nem toda a gente decide da mesma forma e isso tem um custo.

Há uma ilusão confortável no mundo profissional.
A de que não decidir é uma posição neutra, que adiar é prudência, que evitar é estratégia.
Não é. É uma decisão. Só que tomada por omissão.
E como qualquer outra decisão, tem consequências. A diferença é que estas são mais difíceis de rastrear porque nunca foram assumidas conscientemente.
Três posições face à decisão
Existem três formas de nos relacionarmos com as decisões difíceis.
A primeira é decidir. Com o custo que isso implica, a perda de outras opções, o desconforto da incerteza, a responsabilidade pelo resultado. Quem decide aceita tudo isto e avança.
A segunda é adiar. Não por falta de informação, mas por excesso de desconforto. O adiamento raramente é consciente. Aparece disfarçado de "ainda não tenho dados suficientes", "não é o momento certo", "deixa ver como as coisas evoluem". É uma forma de gerir a ansiedade da decisão sem assumir que se está a evitar.
A terceira é evitar. O padrão mais subtil e mais custoso. Evitar não é não decidir, é estruturar a vida e a carreira de forma a nunca ter de confrontar determinadas escolhas. Acumular ocupação para não ter de parar e pensar. Manter opções em aberto indefinidamente. Nunca fechar uma porta para não ter de assumir que escolheu outra.
O preço de não decidir
Existe uma crença implícita de que adiar preserva opções, a realidade é o oposto.
Cada decisão adiada tem um custo que raramente se contabiliza. O custo do tempo que passa enquanto se espera pelo momento certo que nunca chega. O custo da energia mental gasta a manter uma decisão em suspenso. O custo das oportunidades que se fecham enquanto se pondera. E o custo mais silencioso de todos: a erosão gradual da confiança na própria capacidade de decidir.
Quem habitualmente adia, treina o cérebro a evitar o desconforto da decisão. E com o tempo, decisões cada vez menores passam a parecer demasiado grandes.
O que os padrões de decisão revelam
Os padrões de decisão não são aleatórios, são sintomáticos.
Quem decide com frequência e assumindo as consequências tende a ter uma identidade profissional mais consolidada. Sabe o que quer e aceita o custo de o perseguir.
Quem adia sistematicamente está frequentemente à espera de uma certeza que a decisão, por natureza, não pode oferecer. A necessidade de certeza é, muitas vezes, medo de errar disfarçado de rigor.
Quem evita está, na maioria dos casos, a proteger algo. Uma imagem. Uma relação. Uma versão de si próprio que uma determinada decisão poderia pôr em causa.
Nenhum destes padrões é permanente, mas nenhum muda sem ser reconhecido.
Decidir também é soltar
Há uma dimensão da decisão que raramente se fala: decidir implica sempre perder algo.
Quando escolhemos um caminho, fechamos outros. Quando assumimos uma posição, abrimos mão da neutralidade. Quando avançamos, deixamos para trás o conforto do "ainda estou a pensar".
Esta perda é real e deve ser reconhecida. Mas a alternativa, manter tudo em aberto, tem um custo muito maior. Porque uma carreira construída com intenção não se faz com todas as opções em cima da mesa. Faz-se com escolhas claras, mesmo que imperfeitas.
A decisão mais transformadora que muitos profissionais podem tomar não é sobre emprego, empresa ou função. É sobre o padrão com que se relacionam com as próprias decisões.

Quando olhas para as decisões que tens adiado, o que é que estás realmente a proteger? E qual é o custo de continuar a protegê-lo?
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