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Não basta ser, é preciso ser reconhecido

Soraia Pereira
26 de ago.
3 min de leitura

Atualizado: 19 de set.


A identidade profissional é o que és, a marca pessoal é o que os outros conseguem ver.


No mês passado falámos sobre reinvenção. Sobre como o que nos trouxe até aqui pode não ser o que nos leva mais longe.


Mas há um degrau paralelo a esse e que vale a pena nomear. Antes de nos reinventarmos, há uma questão mais simples: o que já somos hoje chega a ser visto?


Muitos de nós fomos habituados a acreditar que o bom trabalho fala por si. Que a competência, por si só, é suficiente. Que quem merece acaba, mais tarde ou mais cedo, por ser reconhecido.


É uma ideia confortável. E, na prática, custa-nos mais do que imaginamos.




Identidade profissional não é marca pessoal


São conceitos relacionados, mas distintos e confundi-los tem consequências práticas.


A identidade profissional é interna. É o conjunto de valores, competências, perspetivas e formas de trabalhar que definem quem és como profissional. É o que existe independentemente de alguém estar ou não a observar.


A marca pessoal é a perceção externa. É o que os outros conseguem ver, reconhecer e recordar sobre ti. É a tradução da tua identidade numa linguagem que o mundo consegue ler.

O desafio não está em ter uma identidade forte, está em assumir que essa identidade é automaticamente visível para quem importa.



O custo da invisibilidade


A invisibilidade profissional raramente é absoluta, mas sim seletiva e é por isso que é mais difícil de identificar.


Há profissionais que são conhecidos dentro da sua equipa, mas invisíveis para a liderança. Há outros que são valorizados internamente, mas desconhecidos no mercado. Há quem tenha uma reputação sólida numa área, mas nenhuma presença fora dela.

Em todos estes casos, o padrão é o mesmo - A identidade existe, mas a visibilidade não acompanha.


As consequências são concretas. Oportunidades que não chegam porque ninguém pensou em ti. Projetos que ficam com outros porque a tua disponibilidade e interesse não eram conhecidos. Progressões de carreira que dependem de quem te conhece e não necessariamente de quem reconhece o teu valor.

A autonomia real, a capacidade de escolher o próprio percurso, começa quando a identidade e visibilidade estão alinhadas. Enquanto uma existe sem a outra, o percurso é em grande parte determinado por quem te vê e não por quem és.



" A mulher de César não basta ser honesta. Tem de o parecer. "


Esta frase antiga tem uma aplicação direta no mundo profissional contemporâneo.


Não se trata de construir uma imagem que não corresponde à realidade. Trata-se de garantir que a realidade que existe é percetível para quem precisa de te conhecer.

Isto é especialmente relevante para profissionais em contextos corporativos, nos quais a visibilidade tende a ser associada a ego ou a vaidade. Falar do próprio trabalho pode parecer arrogância e a modéstia pode ser culturalmente valorizada, mas profissionalmente penalizante.


Construir visibilidade com intenção não é autopromoção vazia - é responsabilidade profissional. É garantir que o valor que crias é reconhecível, comunicável e consistente com quem realmente és.



Dentro e fora da organização


A marca pessoal não é apenas relevante no mercado externo. É igualmente estratégica dentro das organizações.


Quem és percebido como sendo dentro da tua empresa determina que oportunidades te chegam, que projetos te são confiados, e que conversas te incluem. A perceção interna raramente é neutra. É construída, consciente ou inconscientemente, por tudo o que fazes, dizes, priorizas e como te posicionas.



A questão não é se tens marca pessoal, toda a gente tem. A questão é se a tua está a ser construída com intenção ou se está a ser definida por defeito, pelo que os outros interpretam na ausência de clareza da tua parte. Ser reconhecido não é sorte. É o resultado de alinhar o que és com o que comunicas, de forma consistente, ao longo do tempo.


E há um momento em que esta questão deixa de ser só sobre ti. É quando passas a ser responsável por quem também precisa de ser visto para crescer, mas isso fica para o próximo mês.



O teu valor não muda por ser visto. As tuas oportunidades, sim.

 
 
 

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